Em 1345, Fão era uma povoação de quinhentas almas. Homens de unhas negras de raspar o fundo dos barcos. Mulheres com o cabelo embaciado de nevoeiro. Gentes da areia que viviam do sal, do peixe, da fé num Deus que parecia ouvi-las. >Em 1348, a Peste Negra chega a esta língua de terra entre o Cávado e o Mar Tenebroso. As casas esvaziam-se. As covas abrem-se depressa de mais. E os sobreviventes descobrem que o pior não é a morte - é o esquecimento. >Seiscentos anos depois, uma pá mecânica rasga a terra numa obra em Fão. E a areia, essa velha guardiã silenciosa, devolve o que engoliu. Sepulturas alinhadas como se a pressa da morte não tivesse conseguido apagar a dignidade. Ossos de mães e filhos enterrados no mesmo abraço. E uma fivela de bronze com pasta de vidro azul, pousada sobre o peito de alguém que, mesmo naquele verão de peste, ainda foi amado. FÃO 1348 é o romance do que as crónicas nunca registaram. Não a história de reis ou de santos, mas a de pescadores, salineiros e lavradeiras que existiram, amaram, tombaram e que, pela memória, agora se levantam. - A areia guarda o que os homens esquecem. Seiscentos anos depois, a ciência devolve-lhes o rosto.
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