Ela escreveu sete vezes em onze meses. Recebeu sete respostas. Todas iguais, todas automáticas, todas às oito e meia da manhã do dia seguinte."Olá! Recebemos sua mensagem e vamos analisar."Heloísa Vasconcelos tinha trinta e quatro anos, era bióloga marinha em Fernando de Noronha e passava as noites baixando um hidrofone a vinte e dois metros para gravar o barulho do recife. Morreu num mergulho nove dias depois da última mensagem.Quem vai à ilha não é Rafael Guerra. É a filha dele.Nina tem vinte e quatro anos, é editora-chefe do podcast, e escreveu aquela resposta automática ela mesma, em doze de março, num dia em que a fila passou de mil mensagens e ela teve medo de alguém ficar sem retorno. O sistema já a disparou duzentas e catorze mil vezes.Em Noronha ela encontra um mestre de barco que guardou onze meses, dentro de uma lata de leite atrás do fogão, um cartão de memória que não sabia ler. Encontra quarenta e três minutos de áudio gravado embaixo d'água. E encontra um motor de embarcação onde não pode entrar barco - três noites por semana, sempre nas vésperas do voo de carga.O laudo diz acidente de mergulho, e o laudo está tecnicamente correto.Numa ilha onde tudo é contado - moradores, leitos, veículos, visitantes - cada vaga vale dinheiro porque não pode haver mais. E quando alguém incomoda, não é preciso violência: basta um prazo de quarenta e oito horas assinado por uma repartição.
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