E se aquilo que chamamos de realidade for menos sólido do que parece?Durante décadas, Carlos Castaneda ocupou uma região desconfortável da cultura contemporânea. Para alguns, foi a voz de uma antiga sabedoria capaz de romper os limites da percepção. Para outros, um escritor brilhante cercado por controvérsias, ambiguidades e suspeitas. Entre a veneração e o desprezo, porém, permanece uma pergunta muito mais interessante: por que sua obra continua perturbando nossa ideia de realidade?Este livro retorna a Castaneda sem pedir ao leitor que acredite e sem lhe oferecer a comodidade da rejeição. Tonal e nagual, ponto de aglutinação, Intento, silêncio interior, sonhar, espreita, impecabilidade, morte como conselheira e conhecimento silencioso são examinados como partes de uma arquitetura da percepção. Ao mesmo tempo, suas afirmações históricas, antropológicas e ontológicas são submetidas a critérios rigorosos. O que é experiência? O que é símbolo? O que pode ser interpretado? O que permanece hipótese? E o que foi realmente demonstrado?A investigação se amplia com a Teoria do Nó Temporal (TNT) e com a noção de Realidade Projetada. A percepção deixa de ser tratada como simples janela aberta para um mundo pronto e passa a ser compreendida como relação entre corpo, memória, atenção, linguagem, tempo, energia e coerência. Talvez não vejamos simplesmente "a realidade". Talvez habitemos uma configuração extraordinariamente estável dela.Nesse percurso, Castaneda encontra a filosofia, a fenomenologia, a antropologia, a ciência e a teoria da percepção. Fernando Pessoa já havia condensado uma intuição formidável ao escrever que "o mito é o nada que é tudo". Este livro leva essa provocação a sério. Um mito não precisa ser literalmente verdadeiro para revelar algo profundo, mas sua força simbólica tampouco o dispensa de responder por aquilo que afirma sobre o mundo.O resultado não é uma defesa de Castaneda, nem sua demolição. É uma investigação sobre as costuras da realidade que aprendemos a considerar natural.Gilson Fais é advogado, físico teórico, engenheiro de computação e escritor. É o criador da Teoria do Nó Temporal, proposta que investiga as relações entre tempo, consciência, percepção e estrutura da realidade. Neste livro, ele aplica esse horizonte teórico a um dos autores mais controversos e fascinantes do século XX, procurando preservar ao mesmo tempo a abertura ao extraordinário e a exigência do rigor.Porque talvez a pergunta decisiva não seja se Castaneda estava certo.Talvez seja esta: quanto da realidade que defendemos com absoluta convicção foi realmente descoberto por nós, e quanto apenas aprendemos a não questionar?
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