A justiça, em sua representação mais icônica, é uma mulher de olhos vendados. A venda simboliza a imparcialidade, a ideia de que a lei deve ser aplicada sem distinção de raça, gênero, classe social ou qualquer outra característica. Mas o que acontece quando essa venda, em vez de garantir a imparcialidade, se torna um símbolo da invisibilidade? O que acontece quando o sistema de justiça, em sua busca por uma suposta objetividade, se torna cego e surdo às necessidades mais básicas de uma parcela significativa da população? Este livro nasceu da inquietação causada por essa pergunta. Ao longo de anos estudando o sistema penal brasileiro, percebi uma falha estrutural profunda e silenciosa: a incapacidade do sistema de se comunicar de forma eficaz com pessoas com deficiência. Vi casos onde o direito à informação, à defesa e à própria dignidade eram violados não por maldade, mas por uma ignorância sistêmica, por uma falta de preparo que beira a negligência. A história que reconstruo neste livro, de um homem com deficiência auditiva que assinou uma confissão sem entender uma única palavra do que estava escrito, não é uma exceção. É um sintoma de uma doença crônica que afeta todo o sistema. É o reflexo de uma justiça que, em sua pressa para julgar, se esquece de ouvir. E de ver.
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